Uniao de Blogueiros Evangelicos



INTRODUÇÃO

Rubem Alves e a Alegria de Ensinar
“Nossos dias são preciosos, mas com alegria os vemos passando se no seu lugar encontramos uma coisa mais preciosa crescendo: uma planta rara e exótica deleite de um coração jardineiro, uma criança que estamos ensinando, um livrinho que estamos escrevendo”.
O que pode haver de mais singelo quando vemos algo que projetamos ser realizado, ser colocado em prática e seguido por uma infinidade de pessoas e culturas? Realmente não há preço que se pague nem sentimento que se expressem, só nos resta admirar e refletir o quanto trabalhamos para que aquilo fosse concluído.
Quando procuramos falar na teoria pedagógica de um ícone da educação como Rubem Alves, um cuidado muito grande precisa ser tomado para que não teorizemos o que já pratica e deseja que outros também o façam.
O poema que inicia este texto tem em seu centro um sentimento que faz parte da maioria dos seres humanos, expresso de várias formas e que nunca se perde, ou pelo menos não deveria, com o tempo: A Alegria.
“Da alegria não se aposenta...” e é bem verdade esta afirmação.
Os técnicos em educação desenvolveram métodos de avaliar a aprendizagem e, a partir dos seus resultados, classificam os alunos. Mas ninguém jamais pensou em avaliar a alegria dos estudantes – mesmo porque não há métodos objetivos para tal. Porque a alegria é uma condição interior, uma experiência de riqueza e de liberdade de pensamento e sentimento.
É necessário que se goste de fazer para fazer e não ser obrigado a fazer aquilo que não gosta. Tenho que ter interesse, vontade e alegria por fazer.
A globalização impõe o desenvolvimento de habilidades que possibilitem uma melhor adaptação às novas culturas e aos novos padrões de cultura social e, direta ou indiretamente isto afeta a educação, a forma de como se ensina.
O tempo é o senhor da vida e por isto não pode ser perdido.
Quando este conceito é aplicado à pedagogia, por exemplo, já não há mais aquele tempo para os pequeninos aproveitarem os brinquedos pedagógicos: bola de gude, pipa, carrinho, boneca de pano. Estes não têm função nenhuma de ensino. É o que dizem!
Desde cedo já são levados a “aprenderem” novas línguas, novos conceitos para não ficarem retrógrados aos acontecimentos e com isto perdem a alegria pelo aprendizado, pois este só tem uma função: Formatar e não formar.
Se fizer uma pesquisa entre as crianças e os adolescentes sobre as suas experiências de alegria na escola, eles terão muito que falar sobre a amizade e o companheirismo entre eles, mas pouquíssimas serão as referências à alegria de estudar, compreender e aprender.
O perfil da educação no Brasil apresentou mudanças significativas nas últimas décadas. O desempenho dos alunos remeteu-se a necessidade de considerarem a formação do professor, como sendo requisito fundamental para a melhoria dos índices de aprovação, repetência e evasão do ensino.
O que se deve considerar é que o ato de ensinar e aprender é uma constante troca, onde se torna imprescindível que o professor seja, a cima de tudo, um educador que enfrente desafios e possa encarar os problemas presentes na sua formação e, assim compreender que o conhecimento se processa através de valores que embasam e justificam a aprendizagem, relações interpessoais dos sujeitos envolvidos no processo e o que vivenciam em sala de aula.
Ter alegria ao ensinar!
“O mestre nasce da exuberância da felicidade. E, por isso mesmo, quando perguntados sobre a sua profissão, os professores deveriam ter coragem para dar a absurda resposta: ‘Sou um pastor da alegria... ’ Mas, é claro, somente os seus alunos poderão atestar da verdade da sua declaração...”.
Veremos neste breve trabalho que, para Rubem Alves, educar é motivar para a existência.
RUBEM ALVES POR RUBEM ALVES

“Nasci no sul de Minas Gerais, Boa Esperança, antigamente, quando nasci, Dores da Boa Esperança: tinha de ser dor de parto. Lá tem uma serra que o Lamartine Babo, ferido por um amor impossível, transformou em canção. Meu pai era rico, quebrou, ficou pobre. Tivemos de nos mudar. ‘Quando a desgraça é profunda, que amigo se compadece?’ Sofri muito no Rio de Janeiro, adolescente caipira freqüentando colégio de classe média. Grande solidão. A religião me acolheu. Admirei Albert Schweitzer, teólogo protestante, organista, medico, premio Nobel da Paz. Quis seguir o seu caminho. Tentei ser pianista. Fracassei. Sobrava-me vontade e disciplina. Faltava-me talento. Fui pastor no interior de Minas, convivi com gente simples, minhas idéias sobre os mistérios sagrados não agradaram aos poderosos da denominação protestante à qual eu pertencia. Fui estudar em Nova Iorque, voltei um mês depois do golpe militar, fui denunciado pelas autoridades da Igreja Presbiteriana do Brasil como comunista e subversivo, minha família e eu tivemos de sair do Brasil, fui estudar em Princeton, onde escrevi coisas que, posteriormente, virariam a Teologia da Libertação. O tempo passou, voltei ao Brasil, mudou o meu jeito de pensar. Golpes duros da vida me fizeram descobrir a literatura e a poesia. Aí, pude começar a realizar o meu sonho de ser músico: comecei a fazer música com as palavras.
Leituras de prazer especial: Nietzsche, T.S. Eliot, Kierkegaard, Camus, Lutero, Agostinho, Guimarães Rosa, Tao Te Ching, o Eclesiastes, Bachelard, Octávio Paz, Borges, Barthes, Michael Ende. Pintura: Bosch, Bruegel, Grünenwald, Monet. Música: César Frank, Keith Jarret, Pink Floyd, Milton, Chico, Tom Jobim, que acabava de ficar encantado. Minha filosofia pode ser resumida em frases latinas:
- Tempus fugit – o tempo foge, passa rapidamente, tudo é espuma.
- Carpe Diem – portanto, colha o dia como um fruto saboroso na parede do abismo.
Descobri que muitas estórias infantis moram dentro de mim, adormecidas. Vez por outra uma delas acorda, e eu capturo com minha gaiola de palavras: um livrinho. Mas cada leitor pode abrir uma portinhola, e o passarinho voa livre de novo. Já tive medo de morrer. Não tenho mais. Mas a morte é minha companheira. Sempre conversamos e aprendo muito com ela.
Quem não se torna discípulo da morte está condenado a ser tolo a vida inteira “
“Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos fragmentos de futuro em que a alegria é servida como sacramento, para que as crianças aprendam que o mundo pode ser diferente. Que a escola, ela mesma, seja um fragmento do futuro...”. Rubem Alves
PROFESSOR OU EDUCADOR? A RELAÇÃO ALUNO/PROFESSOR

Rubem Alves faz uma distinção entre o professor e o educador:
O primeiro é aquele que se vê como mero transmissor de conhecimento e o segundo é aquele que busca, por meio da transmissão de conhecimentos, de maneira crítica e reflexiva, contribuir para que o aluno possa desenvolver-se, superar-se, realizar-se, como indivíduo e como cidadão.
Perfis diferentes e, infelizmente, pouco observados em suas essências.
Uma necessidade maior se faz neste processo que podemos chamar de relacionamento ou relação entre Professor/Educador e o aluno.
“O momento atual impõe ao profissional de educação desenvolver habilidades que possibilitem uma melhor adaptação às novas culturas e aos novos padrões de conduta social. Além disso, o acelerado processo de globalização em que se encontra o país insere o homem em um ambiente de alta competitividade e seletividade. Nesse contexto, a relação professor-aluno representa um esforço a mais na busca da praticidade, afetividade e eficiência no preparo do educando para a vida, numa redefinição do processo ensino aprendizagem.
Não obstante, cada profissional deve ter claramente definido o seu papel nesse contexto social, onde esta relação aqui considerada passa a ser alvo de pesquisas, na busca do diálogo, do livre debate de idéias, da interação social e da diminuição da importância do trabalho individualizado.
A interação professor-aluno ultrapassa os limites profissionais, escolares, do ano letivo e de semestres. É, na verdade, uma relação que deixa marcas, e que deve sempre buscar a afetividade e o diálogo como forma de construção do espaço escolar, trazendo à tona algumas questões norteadoras:
a) de que maneira a relação professor-aluno interfere no processo ensino aprendizagem?
b) como fazer com que a relação professor-aluno torne-se um alicerce para a construção do conhecimento?
c) como trabalhar a relação professor-aluno imbuída de afetividade e diálogo para a formação de um cidadão mais crítico, consciente e participativo.
Objetivamente, busca-se desvelar o âmago da relação professor-aluno diante dos problemas educacionais, buscando com isso lançar uma reflexão acerca do processo de construção do conhecimento. Especificamente, a intenção é de identificar os fatores que dificultam o relacionamento entre professor e aluno, compreender como uma boa relação entre estes atores contribui para o processo de ensino-aprendizagem e, ao final, propor alternativas que possam contribuir para a melhoria do relacionamento aqui trabalhado, numa perspectiva de aprendizagem significativa e satisfatória.
Ser professor não constitui uma tarefa simples, ao contrário, é uma tarefa que requer amor e habilidade”.
“Pense sobre isto: um chato é uma pessoa que não sabe brincar com o inexistente. É aquela pessoa que, depois de ouvir a piada que faz todo mundo rir, faz a pergunta: Mas isto aconteceu mesmo?” Rubem Alves.
O SABER QUE É DADO

“E chega o momento quando o Mestre toma o discípulo pela mão, e o leva até o alto da montanha. Atrás, na direção do nascente, se vêem vales, caminhos, florestas, riachos, planícies ermas, aldeias e cidades. Tudo brilha sob a luz clara do sol que acaba de surgir no horizonte. E o Mestre fala:
‘Por todos estes caminhos já andamos. Ensinei-lhe aquilo que sei. Já não há surpresas. Nestes cenários conhecidos moram os homens. Também eles foram meus discípulos! Dei-lhes o meu saber e eles aprenderam as minhas lições. Constroem casas, abrem estradas, plantam campos, geram filhos...
Vivem a boa vida cotidiana, com suas alegrias e tristezas. Veja estes mapas!’
Com estas palavras ele toma rolos de papel que trazia debaixo do braço e os abre diante do discípulo.
‘Aqui se encontra o retrato deste mundo. Se você prestar bem atenção, verá que há mapas dos céus, mapas das terras, mapas do corpo, mapas da alma. Andei por estes cenários. Naveguei, pensei, aprendi. Aquilo que aprendi e que sei, está aqui. E estes mapas eu lhe dou, como minha herança. Com ele você poderá andar por estes cenários sem medo e sem sustos, pisando sempre a terra firme. Dou-lhe o meu saber”.
Quando se dá algo para alguém é por que existe um carinho, um amor especial por este alguém.
Com o saber pode-se dizer a mesma coisa. O mesmo só é dado se existe amor e carinho por quem está dando.
Anos e anos são investidos em pessoas que, mais tarde, estarão lembrando daquele ou daquela professora que as iniciaram em seus estudos. Que foram amáveis e pacientes com elas. Que acreditaram nelas enquanto outros recusaram o desafio.
Os saber lhes foi dado e agora será retransmitido.
Na sua forma de Educar, Rubem Alves não só se preocupa em como educar, mas como fazer com que esta educação seja transmitida para a posteridade.
Em um dos seus pensamentos ele sintetiza: “Entendo assim a tarefa primeira do educador: dar aos discípulos razões para viver. Tudo mais são complementos”.
“O sabor e o poder só se justificam como panelas onde se prepara a alegria de viver. O objetivo do saber é aumentar as nossas possibilidades de sentir sabor”. Rubem alves
CONCLUSÃO

A ALEGRIA DE ENSINAR

“Muito se tem falado sobre o sofrimento de ser professor. Eu, que ando sempre na direção oposta e acredito que a verdade se encontra no avesso das coisas, quero falar sobre o contrário: a alegria de ser professor, pois o sofrimento de ser um professor é semelhante ao sofrimento das dores de parto: a mãe aceita e logo dele se esquece, pela alegria de dar à luz um filho”. Rubem Alves
O ponto central de toda a explanação foi a alegria. A alegria por fazer aquilo que se gosta e a alegria de receber aquilo que estão passando. Neste caso vemos os dois lados. O de quem ensina e o de quem aprende.
Foi tomado como base da pedagogia deste grande “ensinador” a alegria de ensinar.
Rubem Alves nos apresenta este legado e nos deixa claro que aquilo que se faz com prazer e com alegria se torna mais produtivo e com mais chances de ser passado para as próximas gerações. Ele é prova viva disto.
Repito o já dito no começo deste trabalho: “Quando procuramos falar na teoria pedagógica de um ícone da educação como Rubem Alves, um cuidado muito grande precisa ser tomado para que não teorizemos o que já pratica e deseja que outros também o façam”.
Se muito falamos, pouco agimos, e neste caso a teoria pedagógica de Rubem Alves se mostra com atitudes, com ação e não somente com teorização.
O transmitir o que se sabe com alegria e prazer é o ponto fundamental de uma pedagogia prática e próspera. Ainda que haja dores quando se ensina, o fruto deste “parto” será uma bela “criança” nova ou velha, conhecedora do desconhecido e desejosa por passar adiante aquilo que lhe foi ensinado com prazer.
Bibliografia:
Livros:
1. Alves, Rubem Azevedo, 1993 - Conversas com quem gosta de ensinar / Rubem Azevedo Alves: São Paulo: Ars Poética, 1995;
2. Alves, Rubem, 1993 – A Alegria de Ensinar / Rubem Alves – São Paulo: Ars Poética, 1994.
Sites:
1. A casa de Rubem Alves: www.rbemalves.com.br;
2. Rubem Alves – Biografia: www.releituras.com;

Exibições: 717

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